Imagem: JIM WATSON/AFP

Em 20 de janeiro de 2020, Joseph R. Biden foi inaugurado como o 46º presidente dos Estados Unidos da América ao lado de, Kamala D. Harris, a primeira vice-presidente da história do país. Como vem ocorrendo nos últimos meses, os últimos desdobramentos nos Estados Unidos são históricos: uma eleição em meio a uma pandemia global, acusações de fraudes por parte do presidente em exercício, a recusa do mesmo presidente em aceitar os resultados eleitorais, uma invasão ao Capitólio do país por manifestantes que, motivados por Donald Trump, buscaram impedir a certificação da vitória de Biden pelo Congresso e um mesmo presidente sofrer um impeachment duas vezes no mesmo mandato. A posse presidencial do último dia 20 também não deixaria de ser um momento histórico frente os últimos momento turbulentos que a democracia norte-americana enfrentou – e, em partes, ainda enfrenta.

Uma derrota amarga para Trump

A ausência do ex-presidente Donald J. Trump na cerimônia, apesar de já esperada, foi um ato simbólico para sua base de apoiadores. Mesmo com o ataque ao Capitólio, a narrativa de fraude e injustiça nas eleições ainda perdura para o ex-presidente. Trump é o primeiro ex-presidente a não atender a inauguração de seu sucessor nos últimos 150 anos de história nacional e o primeiro presidente na história recente a não conceder a vitória a seu adversário. Na manhã da inauguração, o ex-presidente concedeu o perdão presidencial para mais de 70 figuras ligadas a sua administração, impedindo que sejam condenadas por crimes que possam ter cometidos. Apesar de rumores, Trump recuou e não concedeu o perdão a si mesmo e seus filhos, uma vez que poderia abrir um precedente perigoso na política do país.

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Nesse sentido, Trump encerra seu ciclo presidencial da mesma forma que o iniciou: sob uma narrativa de perseguição política frente uma elite nacional que busca “roubar” o país. Um fato que deve ser ressaltado é que, dentro de sua base de apoiadores, essa narrativa ainda possui muita força. Todavia, sua imagem deixa a Casa Branca mais frágil, uma vez que se encontra banido de todas as redes sociais, com a possibilidade de sofrer represálias legais frente irregularidades cometidas em seu mandato e sem o mesmo apoio do partido do qual liderou nos últimos quatro anos, o Partido Republicano. Apesar da ausência do ex-presidente e da ex-primeira-dama, Mike Pence, vice de Trump, compareceu a cerimônia junto de outros representantes republicanos, respeitando as tradições inerentes no processo de transição de poder.

Uma inauguração completamente diferente

A cerimônia de transição também marcou história frente as circunstancias inusitadas do atual cenário doméstico do país. Frente uma pandemia, a ausência de um grande público era de ser esperada, contudo, foram os ataques ao Capitólio que forçaram que a ausência de uma plateia ocorresse por questões de segurança nacional. Frente as ameaças interceptadas por órgãos como o FBI, haviam indícios de que um novo ataque poderia ocorrer no momento da inauguração de Biden e Harris. Nos dias que antecederam a posse, as preocupações acerca da segurança no evento ficaram ainda mais alarmantes quando membros da Guarda Nacional tiveram de ser dispensados das premissas do Capitólio por conta de possíveis ligações à grupos nacionalistas brancos. Apesar da constante preocupação ao longo da cerimônia, não houveram indícios ou a interceptação de possíveis ataques no dia da cerimônia.

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Uma correção de rumos

Como de costume, presidentes realizam um discurso inaugural no qual agradecem seu antecessor, discorrem sobre os principais desafios para o país e abordam os pontos principais de seu plano de governo. Nesse sentido, a mensagem central de Biden foi a de união e cura nacional após um período constante polarização no país: “Nós devemos acabar com essa guerra não-civilizada”.

O presidente utilizou seu discurso para prestar uma breve homenagem às mais de 400 mil vidas perdidas no país ao longo da pandemia da covid-19 e reiterar a importância desse tema que deve ser combatido de forma conjunta. O tema de igualdade racial, presente em sua campanha, também marcou presença em seu discurso, pedindo um fim ao racismo sistêmico no país e que o momento de equidade racial deverá ser alcançado. Biden reconheceu também o momento conturbado da democracia americana, garantindo que, apesar de frágil, o momento da inauguração demonstrava ao mundo que a democracia dos Estados Unidos ainda respira. Todavia, alertou sob a tentativa de Trump, mesmo sem citá-lo nominalmente, em tentar deturpar o processo democrático. Logo, pontuou que o papel de um líder deve ser sempre construir a política com base em fatos, não na fabricação deliberada de mentiras.

            Diferentemente de outros momentos, hoje, os Estados Unidos se encontram em um momento no qual suas principais ameaças não são externas, mas sim internas. O presidente reiterou esse cenário em seu discurso, no qual pontuou o avanço do nacionalismo branco e do terrorismo doméstico de cunho étnico e cultural como os principais desafios que serão combatidos nos anos inicias de seu mandato. Entretanto, apesar de reconhecer que o cenário é conturbado, Biden buscou ressaltar a possibilidade de união nacional como uma forma de ultrapassar esse momento difícil. Logo, os Estados Unidos se encontram em um momento essencial, no qual suas capacidades como nação e povo serão testadas.

Foto: Divulgação/Campanha Biden e Kamala

Outro âmbito no qual demonstrou mudanças claras frente Trump foi no cenário internacional. Biden pontuou que os Estados Unidos irão retornar ao multilateralismo internacional, voltando ao Acordo de Paris, à OMS e buscando reconstruir relações e pontes com aliados que estavam sendo queimadas na administração anterior. Nesse sentido, reconheceu que o país tem e deve abraçar seu potencial excepcional de liderança global: “E vamos liderar não apenas pelo exemplo de nosso poder, mas pelo poder de nosso exemplo”. Como tradição, utilizou de elementos religiosos para ressaltar o potencial único do país.

Os próximos passos

Biden e Harris iniciam o mandato em uma nação internamente dividida como nunca antes. Com grandes desafios internos, a necessidade de unificar a nação, e consequentemente o Partido Democrata e Republicano, é o aspecto crucial do início de seu mandato. Isso também dependerá da vontade política do Partido Republicano que, após observar em primeira-mão o quão longe o trumpismo pode ir, seria capaz de buscar trabalhar em conjunto com lideranças democratas. Devemos relembrar que Trump ainda não é um player irrelevante no jogo político do país e que o movimento do qual iniciou ainda será fonte de preocupação para os dois maiores partidos do país. Os próximos meses serão cruciais, uma vez que poderemos observar se ainda há a possibilidade de “cura” nacional ou se Trump, de fato, estirou os limites da democracia de forma irreparável.