Imagem: Getty/ Live Jackson

As eleições norte-americanas sem dúvida alguma representaram um dos momentos mais inusitados de 2020: o maior comparecimento às urnas – fisicamente ou via correios – na história do país em meio a um cenário de pandemia global nunca antes vista. Baseada nas últimas pesquisas eleitorais realizadas e frente a alta rejeição que recaia sobre Trump, a vitória de Biden era um cenário esperado.

Os dois candidatos fizeram história como os mais votados no país, com uma diferença de mais de 7 milhões de votos a mais para o democrata. Todavia, as últimas eleições também demonstraram a força política que o trumpismo detinha tanto no voto popular quanto dentro do próprio Partido Republicano.

A expressão “trumpismo” foi cunhada pela mídia e por analistas políticos como um termo guarda-chuva tanto para as gafes quanto para as estratégias políticas e discursivas utilizadas por Donald Trump desde sua primeira campanha eleitoral em 2016.

O trumpismo, ao longo da campanha e do governo de Trump, se transformou em um movimento político robusto e personificado na figura do presidente. Seja por meio de ataques diretos a seus adversários políticos – tanto democratas quanto republicanos – ou através de políticas e discursos que potencializem sentimentos de um nacionalismo mais fervoroso e conservador no país.

O trumpismo permitiu que sua base de eleitores criasse uma conexão única com o ex-presidente, chegando até o ponto de Trump e sua equipe criarem o Real News Update, um programa televisivo em redes sociais comprometido com a “veracidade dos fatos”. Aqui há uma clara diferença de Donald Trump com outras figuras políticas clássicas da história dos EUA: um não comprometimento com a realidade objetiva do país. Ao longo dos últimos quatro anos, a era Trump foi marcada por declarações de canais oficiais do governo que eram objetivamente falsas ou que extrapolavam o nível do que antes era aceitável no debate político do país. Nesse quesito, Donald Trump solidificou o trumpismo com base em duas estratégias políticas: bombardeios de mentiras, conhecido como firehose of lies, e a janela de Overton, conhecido como Overton Window.

Créditos: Geralt/pixabay

Os fatos alternativos

Uma estratégia empregada desde sua campanha eleitoral em 2016, o alto número de declarações falsas que variam desde “o maior corte de impostos da história” até a conspiração de que havia um “governo invisível” comandado por democratas que buscava derrubar o então presidente, a administração Trump produziu uma quantidade imensurável de declarações que, mesmo sem a presença de uma agência verificadora de dados, era possível identificar a falta de veracidade dos fatos. Líderes como Putin, na Rússia, Órban, na Turquia, e até mesmo o atual presidente brasileiro também utilizam da mesma estratégia.

A explicação para essa estratégia reside na simples demonstração de poder no cenário político. Ser capaz de emitir declarações absurdas sem segundas considerações denota uma confiança vezes ausente em lideranças políticas, fazendo com que seus apoiadores observem a força de seu líder ao passo que identifiquem fraqueza em outros oponentes políticos, que despendem tempo demasiado checando os fatos em cada frase pronunciada pelo presidente.

Se a “verdade” deve ser simples, quanto mais um lado tenta defende-la, mais frágil aparenta ser. Infelizmente, ao longo de quatro anos, os oponentes de Trump acabaram por se comportar da forma que mais favorecia o republicano nessa dinâmica – razão pela qual que, mesmo após derrotado, grande parte de seus eleitores são incapazes de aceitar uma realidade objetiva que não favorece o próprio Trump.

De forma sucinta, a ex-conselheira do presidente, Kellyanne Conway, definiu bem essa dinâmica logo no início do mandato de Trump quando um jornalista demonstrou claramente que o secretário da Casa Branco havia mentido em uma declaração: “Ele não estava mentido, ele havia simplesmente dado fatos alternativos”.

Créditos: Janeb13/pixabay

Aumentando o espaço na janela

O conceito da Overton Window na ciência política é relativamente simples: para que novas ideias ou avanços sejam mais facilmente aceitos, é necessário que o interlocutor comece do patamar do menos aceitável, fazendo com que a ideia inicial, que antes poderia ser impensável, aparente ser uma alternativa viável.

Na política prática, esse conceito permite que novas pautas e legislações possam ser inseridas mais facilmente no debate político e, consequentemente, aprovadas. Podemos tomar como exemplo a possibilidade de legalizar o uso medicinal de maconha. Com base nessa estratégia, advogar pela legalização total da maconha seria uma forma de forçar a janela de Overton para um extremo quase que impensável. Logo, a legalização medicinal se apresentaria como uma opinião mais aceitável. Todavia, a janela de Overton, no caso do governo Trump, acabou por normalizar determinados comportamentos e conceitos impensáveis na política domésticas do país antes de 2016.

Hoje, por exemplo, já não é um absurdo que Trump não condene grupos supremacistas brancos que atuam no país – essa janela já havia sido superada em 2018 quando se recusou a condenar grupos similares que participaram de uma passeata com cantos racistas e que, consequentemente, resultou na morte de uma manifestante contrária.Ofensas pessoais proferidas pelo presidente à aparência de um indivíduo, a defesa da criação de um muro na fronteira com o México também e, para muitos analistas políticos, a não aceitação por parte de Trump dos resultados das eleições, são alguns exemplos que demonstram como a janela de Overton sofreu graves mudanças no debate político do país.

Créditos: Michelle Gustafson

O horizonte do trumpismo

Mesmo com os recursos legais praticamente esgotados e a certificação da vitória de Biden no colégio eleitoral, Donald Trump, em seus últimos dias na Casa Branca, demonstra estar indiferente quanto a possibilidade de recuar, acalmar sua base e auxiliar em um processo de transição mais democrático e menos traumático. O vazamento da ligação de Trump com o secretário da Georgia, na qual pede para que encontre 11 mil votos favoráveis a ele no estado, e o levantamento da possibilidade de realizar algum tipo de intervenção com o exército para assegurar sua presidência, segundo relatos de membros de seu governo, são exemplos recentes que demonstram o comprometimento, até os últimos momentos de seu mandato, com as duas estratégias que mais utilizou ao longo dos últimos anos.

Há, contudo, um elemento preocupante das últimas eleições: a contestação de Trump acerca da confiabilidade do sistema democrático nos Estados Unidos abre um precedente perigoso quando este é incluído as duas estratégias abordadas aqui. O efeito a curto prazo já fica claro nas primeiras pesquisas publicadas pela Economist, na qual 88% dos eleitores de Trump concordam que Biden foi eleito de forma ilegítima.

Imagem: Getty

Além disso, o trumpismo, mesmo sem Trump, ainda permanece com uma base sólida de eleitores dos quais o Partido Republicano não pode deixar de reter – o apoio ainda existente de muitos políticos de dentro do partido à narrativa de Trump demonstra essa preocupação com futuras eleições. Logo, o principal refém do trumpismo é o próprio partido dos conservadores.

Com a oposição já declarada de 11 republicanos frente a certificação dos resultados das eleições pelo Congresso, o trumpismo ainda se fará presente nos noticiários do país, pelo menos, até a inauguração de Joe Biden em 20 de janeiro. Cabe observarmos se o movimento iniciado por Trump sobrevive sem uma liderança única ou se, no cenário mais preocupante, um “novo Trump” surja em um futuro próximo.