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A real força do movimento trumpista foi observada nos acontecimentos da última quarta-feira, 6 de dezembro, em Washington DC. Enquanto representantes democratas e republicanos se reuniam para certificar os votos que Joe Biden havia ganhado no colégio eleitoral, oficializando sua presidência frente o Congresso, manifestantes pró-Trump cruzaram as barreiras de segurança do Capitólio e iniciaram uma invasão que resultou em agressões, depredações, detenções e em cinco mortes nos dias que se seguiram.

Imagens como as de apoiadores invadindo gabinetes de representantes democratas, apoiadores brancos de Trump perseguindo um guarda negro com gritos de “Black Lives Matter!” em tom de ameaça e a troca da bandeira do país da faixada do Capitólio por uma bandeira de campanha de Trump são algumas das visões que deixarão cicatrizes profundas na democracia norte-americana – e que dificilmente serão curadas tão cedo. Contudo, cabe destacar o catalisador e o maior responsável por esse acontecimento: o próprio presidente, Donald Trump.

A responsabilidade de Trump       

Joshua Roberts/Getty Images/AFP

Horas antes do início da invasão ao Capitólio, Trump discursava para apoiadores em frente a Casa Branca, argumentando acerca da ilegalidade dos resultados eleitorais. Como o presidente vinha fazendo desde a vitória projetada de Biden em meados de novembro, Trump incitou diretamente seus apoiadores: “Se vocês não lutarem ao máximo, vocês não terão mais um país”. Após direcionar que seus apoiadores levassem seus protestos para frente do Capitólio, o presidente disse que estaria lá com eles – o que não ocorreu. Obviamente que já havia uma mobilização pré-organizada por seus apoiadores através da rede social para conservadores, o Parler (atualmente banida nas plataformas da Apple e do Google), todavia, Trump, sabendo da capacidade de mobilização a partir de sua liderança, pediu para que seus apoiadores fizessem daquele momento a “última batalha” por sua presidência – apoiando uma insurreição contra o próprio governo dos Estados Unidos, crime de caráter federal.

Créditos: Alan Santos/ PR

Após a presença da Guarda Nacional ter sido requisitada para auxiliar a polícia local por membros do legislativo – situados naquele momento em uma unidade de segurança dentro do Congresso –, o pedido foi atrasado pelo próprio presidente, permitindo que manifestantes tomassem mais espaço dentro das instalações.

Cabe relembrar que após a recusa de Trump em aceitar os resultados eleitorais em novembro, diversas autoridades de alto-escalão do Departamento de Defesa foram substituídas por representantes mais fiéis ao presidente. Dias antes do episódio do dia 6, o próprio Departamento de Defesa estabeleceu um limite mínimo do contingente da Guarda Nacional em DC, estipulando o menor uso possível de força militar no dia das manifestações.

Foto divulgação

Outro elemento chocante que merecesse destaque foi a possibilidade de observar a presença de membros de grupos de extrema-direita na polícia dos Estados Unidos – um elemento que já é investigado pelo FBI desde a década de 1970 com a presença de membros da Ku Klux Klan na força policial. Em registros realizados no local é possível ver policias abraçando e tirando selfies com manifestantes e a hesitação policial em responder com força física frente manifestantes que em sua maioria brancos, encontravam-se armados e violentos. O episódio reflete também a força desproporcional utilizada por policiais em situações que envolvem indivíduos afro-americanos. Mesmo com a presença de armas nas mãos dos apoiadores de Trump no último dia 6, nenhum manifestante sofreu uma violência preventiva na proporção que George Floyd recebera quando foi morto no ano passado.

Mesmo após a invasão do Capitólio e o ultimato de Biden para que Trump fosse em rede nacional pedir para que seus manifestantes parassem, o então presidente postou um vídeo curto em suas redes sociais. O vídeo em questão, diferentemente do esperado, não condenava a invasão ao legislativo, era regado de um tom ameno, no qual dizia compreender a dor de seus apoiadores em ter uma eleição roubada. Trump conclui o vídeo pedindo para que seus apoiadores retornem para suas casas e com a infame frase: “Nós amamos vocês. Vocês são pessoas muito especiais”. O episódio foi caracterizado, até mesmo por políticos do partido de Trump, como uma tentativa de golpe de Estado e de terrorismo doméstico. Mesmo após ser banido de quase todas as redes sociais existentes, Trump não recuou sua narrativa de fraude. Agora, a mesma narrativa se mistura com o elemento da perseguição política junto do impedimento da liberdade de expressão de um presidente.

Foto: Olivier Douliery/AFP

Um novo Impeachment?

            Após pressionado, seu vice, Mike Pence, descartou a possibilidade de invocar a 25a Emenda – alegando a incapacidade do atual presidente em governar o país, o afastando do cargo –, tornando o impeachment como a única alternativa para retirar Trump do cargo. Mesmo com a inauguração de Biden no dia 20 de janeiro, o afastamento de Trump se apresenta como uma urgência para a segurança nacional após os episódios do Capitólio, a incapacidade do presidente em assumir responsabilidade pelo ocorrido e o poder e a influência presidencial que ele ainda irá possuir nas próximas semanas. Com a incitação de novos protestos por parte de Trump e a presença de indivíduos munidos de bombas no último dia 6, há informações de que um ataque poderia ocorrer novamente no Capitólio no dia da inauguração de Joe Biden. Logo, democratas apresentaram na última segunda-feira um pedido de impeachment contra o atual presidente, no qual alegam o crime de insurreição contra autoridades do governo e a tentativa de reverter os resultados das últimas eleições, pressionando autoridades estaduais a não certificarem os votos democratas. Nesse sentido, o pedido é apresentado sob um regime de urgência justamente pelo próprio presidente ser caracterizado como uma ameaça à segurança nacional.

            Todavia, não somente pela demora de tramitação de um processo de impeachment, sua aprovação em um Senado de maioria republicano, mesmo no atual cenário, ainda seria muito difícil. O primeiro impeachment sofrido por Trump pode se repetir no atual cenário: a Câmara, de maioria democrata, aprova seu impeachment e o Senado não aplica a punição de afastamento do cargo. O cenário atual já é altamente conturbado para representantes republicanos, uma vez que, mesmo que alguns tenham passado a denunciar os atos recentes do presidente, um voto contrário ao líder de seu próprio partido – ainda muito popular na base de eleitores – poderia resultar no suicídio de suas carreiras políticas. Todavia, com a possível aprovação do pedido na Câmara, Trump já entraria para a história como um presidente que foi impeachado duas vezes no mesmo mandato – um fato inédito e desmoralizante para uma das maiores democracias do mundo. Os próximos dias serão decisivos para a história do país e merecem a devida repercussão internacional, uma vez que, se os Estados Unidos são um modelo para diversas nações, o país também pode servir como uma fonte de inspiração negativa para que outros líderes políticos tomem ações similares a de Donald Trump.