Doug Mills/The New York Times

Faltando pouco mais de duas semanas para as eleições norte-americanas, a campanha de Donald Trump parece ter estagnado em novas estratégias frente as pesquisas eleitorais – que desfavorecem Trump. Mesmo constantemente relembrando que em 2016 as pesquisas apontavam para sua derrota, Trump deixa de fora algumas variáveis importantes.

Primeiramente, a não contabilização de eleitores com baixa escolaridade na última eleição e outros erros na apuração foram corrigidos, uma vez que o resultado errôneo quase que unânime fez com que agências especializadas atualizassem suas metodologias. Nesse sentido, Trump perde em todos os chamados battleground states ­– os 14 swing states nos quais haverá a maior disputa por votos por não ter uma fidelidade partidária – exceto no Texas. Mesmo pontuando uma margem de erro de 3% em favor ao republicano, o atual presidente ainda perde em 6 estados-chave nessa eleição.

 Se realizarmos uma estimativa conservadora, com a vitória de Biden nos estados-chave nos quais ainda ganha mesmo com uma margem de 3%, o candidato democrata obtém 90 votos decisivos na disputa que, se somados aos 193 votos no colégio eleitoral em Estados Democratas praticamente garantidos, Biden tem uma vitória com 283 votos no colégio eleitoral – lembrando que são necessários 270 votos para ganhar uma eleição nos Estados Unidos. Mesmo ganhando nos Estados restantes, no cenário mais otimista para Trump, ele alcançaria somente 255 votos, sendo sua vitória, sob o ponto de vista das pesquisas realizadas até 16 de outubro, pouco provável. No cenário mais favorável à Joe Biden, sua vitória seria com uma folga grande: 367 votos para Biden e apenas 171 para Trump no colégio eleitoral. Somado a esses possíveis cenários, o não comparecimento de eleitores democratas e independentes às urnas em 2016 provavelmente não se repetirá.

Por mais descontentes que muitos eleitores progressistas estejam frente a não nomeação de Bernie Sanders, os últimos quatro anos de Donald Trump enfraqueceram, tanto para democratas quanto republicanos, a indiferença frente o voto. Se os eleitores de Trump fizeram questão de saírem de suas casas para depositar seus votos nas últimas eleições, é esperado que uma grande parte de eleitores democratas e insatisfeitos com a atual administração se mobilizem da mesma forma, uma vez que, mesmo pontuando muito alto com seus eleitores, Trump possui uma avaliação altamente negativa de democratas e independentes ­– fazendo com que sua popularidade como um todo não passasse dos 50% nesses últimos quatro anos. Frente tais possíveis cenários, fica mais fácil de entender o atual desespero de Trump.

Mesmo com uma imagem ainda fragilizada e não sendo a melhor opção dentro do partido democrata, a participação de Biden no último debate demonstrou uma sobriedade e seriedade maior de Biden frente o atual presidente. Já era de se esperar que Trump utilizaria um discurso mais agressivo e combativo similar ao que usou em 2016. Todavia, se na última eleição ele demonstrava controle da situação e imune a críticas e sua trajetória política, suas interrupções e agressividade discursiva demonstraram, no primeiro debate, a ausência de propostas para contornar as crises internas enfrentadas no país: a economia,  a Covid-19 e a violência policial por conta de um racismo sistêmico.

Nos debates entre vice-presidentes, Mike Pence, vice de Trump, mesmo mantendo um tom mais ameno e combativo, não respondeu diversas perguntas de Harris em relação ao plano de combate a pandemia e de auxílio econômico a famílias norte-americanas afetadas pela pandemia. Argumentações que tentam associar o partido democrata com a instauração do partido democrata, por mais que possam gerar algum efeito em outros contextos, são extremamente limitantes no atual cenário do país.

Mesmo ainda retendo uma base de apoiadores fiéis, quanto mais radicaliza seu discurso e apresenta menos soluções, mais Trump aliena o eleitor médio que, em 2016, o enxergava como uma opção na retomada de empregos de base. Os acenos que Trump continua fazendo para grupos extremistas – como fez no primeiro debate com os Proud Boys­ – e para teorias conspiratórias, como no caso do QAnon, tornam Biden um candidato mais viável. Mesmo sem Joe Biden apresentar propostas claras, a devida atenção que ele e sua vice, Kamala Harris, estão dando as atuais problemáticas na sociedade norte-americana, ao mesmo tempo em que demonstram a inatividade de Trump, parece ser uma estratégia que, frente ao cenário de crises contínuas, está rendendo frutos. Vale ressaltar, contudo, que o atual cenário de pandemia, ao mesmo tempo em que enfraquece Trump na esfera discursiva, pode gerar efeitos inesperados na votação. Somados a dificuldade do registro de eleitores, o voto por correio e o receio em votar fisicamente por conta da pandemia são fatores imprevisíveis e que podem acabar por gerar um resultado diferente do esperado.

Ainda restando um debate programado para quinta-feira, 22 de outubro, as entrevistas e pronunciamentos de Trump em coletivas e redes sociais, especialmente no twitter, demonstram que a estratégia utilizada no último debate parece continuar a mesma. Se a expectativa era que, com o diagnóstico de Covid-19, Donald Trump poderia utilizar tal contratempo como uma forma de amenizar calibrar o discurso em relação a pandemia de forma mais “natural”, os últimos dias demonstraram o contrário.

Uma vitória de Trump no atual cenário seria uma virada, de fato, inédita. Mesmo em sua eleição em 2016, o cenário não era tão desfavorável quanto o atual. Cabe aguardarmos os desdobramentos que ainda podem discorrer nas últimas semanas antes do dia de eleição. Apesar de a história política moderna dos EUA apontar quase sempre para a reeleição de presidentes, George H. W. Bush e Jimmy Carter são exemplos recentes de que podem haver exceções. De qualquer forma, Trump fará história: ou terá uma virada inédita, ou será o primeiro presidente em mais de vinte anos a não garantir uma reeleição.