Após me tornar uma mulher viúva aos 29 anos, percebi o quanto a sociedade torna a nossa dor e a nossa vida ainda mais difícil do que já é após a devastadora perda do nosso parceiro

Em primeiro lugar, quero contextualizar que tenho 42 anos e me tornei uma mulher viúva aos 29 anos, em 2009, durante um assalto em Suzano/SP, no bairro em que fui criada.

Aconteceu em plena luz do dia, em um lugar onde eu me sentia segura e cercada de pessoas que eu conhecia desde sempre, mas foi alguém de fora que veio nos tirou Luciano, também com 29 anos na época.

Vou deixar aqui a GUIA do meu Instagram @ThatuNunes, onde falo sobre como aconteceu e sobre a viuvez, no geral:

Mas o post de hoje é sobre como a sociedade massacra mulheres viúvas desde sempre e, ao que me parece, cada vez mais, ditando como elas devam viver suas vidas, sentir seus sentimentos e, sobretudo, como devem se anular em detrimento de algo que apenas presumem, mas que não sabem de verdade.

Eu tive muita sorte, pois recebi apoio da maioria das pessoas da minha família e também da família do meu falecido esposo, podendo então viver conforme achei que deveria, no meu próprio tempo, da minha própria forma.

No entanto, isso é um privilégio pra poucas. A grande maioria vive sob o manto do machismo que supõe que a mulher viúva torna-se apenas um mero arremedo do si mesma e deixa de ser uma pessoa, uma mulher.

A falta de estima com a mulher viúva

A falta de estima com a mulher é uma característica social observada em todas as sociedades modernas, já que replicam comportamentos ditados por e para homens.

Mas com a mulher viúva isso se torna ainda mais evidente na medida em que simplesmente não vemos ninguém falando por elas, representando-as, simplesmente porque mulheres viúvas não tem voz, não existem mais socialmente e são tratadas como sombras de seus falecidos maridos, apenas.

Quando comecei a falar da minha viuvez, percebi logo que as pessoas estão muito mais propensas a atirar pedras do que a nos apoiar, por isso é tão complicado falar disso.

Em segundo lugar, também percebi quantas e quantas mulheres se sentiram finalmente representadas por alguém quando decidi falar, porque simplesmente ninguém fala sobre e, quando fala, é sempre em tom academicista, voltado para analisar tecnicamente e nunca para entender de verdade o que é vivenciado na viuvez.

A perda do direito de si e da própria vida

Nota-se com bastante constância que a mulher viúva tem sua vida completamente controlada por terceiros, sejam parentes dela, do falecido, amigos e até mesmo a própria sociedade, em si.

Muitas vezes esse controle é velado, feito de forma bem orquestrada, isolando a viúva de situações sociais ou familiares até que ela finalmente atenda ao comportamento que querem dela, que geralmente é o de renunciar a si mesma, aos próprios sentimentos e vontades e viver apenas como sombra.

Assim, sem ter apoio ou representatividade, a mulher viúva perde a força e acaba sucumbindo, tornando-se uma pessoa a quem do que poderia, deveria e merecia ser, apenas para agradar o egoísmo e sadismo daqueles que desejam que ela sofra eternamente como se isso fosse prova de amor, que – diga-se – não é!

As fases do luto

A se respeitar as fases do luto, que não tem tempo certo e é particular para cada pessoa, a ideia é que a viúva supere suas dores e aprenda a conviver com a saudade e com a memória do falecido, a fim de seguir a vida como qualquer outra mulher: em sua plenitude.

Passar pelas fases do luto nos ajuda a não nos afundarmos numa eterna depressão, onde o culto ao sofrimento nos adoece e nos torna reféns.

Conheça as fases do luto:

E o que você pode fazer para melhorar a vida de uma mulher viúva?

Bom, se você se fez essa pergunta, eu só posso presumir que você seja uma pessoa melhor do que a grande maioria e se você não se fez, eu quero presumir que você vá se tornar uma pessoa melhor do que a maioria ao ler isso.

Aqui, algumas formas de melhorar a vida de uma mulher viúva

1- Evite determinar se é cedo ou tarde demais para algo que ela sinta que precisa fazer

Não existe tempo certo. O que existe é o tempo de cada um e a viúva também é um “cada um” que não é o mesmo “cada um” que você, logo o tempo dela não é o mesmo que o seu.

Deixe que ela siga o curso de vida dela conforme ela acha ou sente que deve, mesmo errando ou acertando, como é direito seu e igualmente é um direito dela.

2- Se quer ajudar, ofereça ajuda, mas deixe-a livre para aceitar ou não

Tal qual a maternidade, onde nos incomoda muito quando alguém se oferece para ajudar, mas tem tudo que ser do jeito e na hora da pessoa, o mesmo vale para tudo na vida, inclusive para a viuvez.

Às vezes, a viúva até gostaria da sua ajuda, mas não naquele exato momento, onde ela está sentindo duramente triste ou naquele onde ela finalmente encontrou um alento para a sua dor contínua.

Então seja respeitoso e entenda que o tempo dela não é o seu. E se você não puder ajudar em outro momento, explique. Ela é uma viúva, não uma imbecil.

3- Respeite o que a viúva sente

Viúvas são pessoas que tem os próprios sentimentos, vontades, sonhos, frustrações e isso precisa ser respeitado.

Não é você, seja você mãe, irmã, amiga dela ou do falecido, que deve ditar como e quando ela deve sentir algo.

A você cabe APENAS respeitar o que ela sente e, NO MÁXIMO – e só se ela pedir, aconselhar sobre como AGIR em relação aos sentimentos, mas sem exigir que ela atenta ao que você recomenda, assim como você também não quer obedecer terceiros ao tomar decisões.

4- A viúva voltar a viver e seguir a vida não fere a memória do falecido

Entender isso é fundamental!

A viúva sorrir, voltar a viver, ter bons momentos, seguir a vida, a carreira, viajar, trabalhar e até namorar e amar de novo não fere a memória do falecido.

O que fere a memória do falecido é parentes que acham que a viúva precisa viver como um zumbi, se arrastando amargurada por aí, como se tivesse presa por uma corrente e uma bola de ferro, pois isso o torna o seu encosto, o seu algoz.

5- Viúvas não tem que viver como a Perpétua de Tieta

Infelizmente, a viúva que as famílias querem é o exato reflexo da Perpétua: cheia de desejos, sonhos e anseios, mas presa em uma casca que agrada socialmente, com vestimentas pesadas, sem vida social, apenas servindo a uma ideia de que o falecido devesse ser a sua única motivação de vida.

Assim, vemos tantas famílias aprisionando suas viúvas em modelos modernos de Perpétua, sem se darem conta de que por dentro elas estão em ebulição.

Sobre amar de novo depois da viuvez

Uma das coisas que mais me perguntam é sobre como foi amar de novo depois da viuvez.

Eu hoje sou casada novamente há 9 anos e só pude estabelecer uma nova relação, porque encontrei alguém que entende que a memória do meu falecido marido é parte de quem sou, da minha vida e vai ser sempre honrada até os meus últimos dias, já que ele mesmo não pode mais viver a própria vida.

Eu não precisei deixar de amar o meu falecido marido para amar novamente e nem preciso comparar qual deles eu amo mais, já que isso não tem qualquer necessidade de se pensar.

Ter um novo companheiro, um novo amor, construir novas histórias e novas memórias não me obrigada a apagar o amor pelo meu falecido marido e nem fingir que Luciano não foi e não é mais importante, porque ele é e será sempre.

E, cá entre nós, sentir ciúme de morto é coisa de gente maluca, né?

Então fiz também um post sobre como é amar novamente, caso queiram entender mais dessa questão. É só clicar e ler a legenda:

Caso queira se comunicar comigo, meu site pessoal é thatununes.com.br e também assino o maedeadolescente.blog.br

Inclusive tenho um post sobre mães viúvas: Um olhar atento para a mãe viúva